
Como muitos jovens de 20 anos, Kae Takahashi tem uma página no MySpace, site norte-americano de redes sociais (tanto ou mais quanto o Orkut no Brasil, lavando em consideração que lá eles nem lembram do turco), e é impossível confundi-la com a página de qualquer outra pessoa.
Há fotos da moderna garota de Tóquio exibindo as roupas que ela mesma desenha em suas horas vagas, acompanhadas por seu nome, detalhes sobre suas atividades e considerações sobre sua vida amorosa escritas em um inglês não muito preciso.
Mas quando alguém visita a página de Takahashi no mixi, o mais conhecido dos sites sociais online japoneses, a identidade dela não está à vista. Lá, Takahashi emprega um pseudônimo, afirma que tem 88 anos e vive na cidade de “Christmas”. O perfil está fechado a visitas de desconhecidos. Takahashi está longe de ser a única pessoa a agir assim: a vasta maioria dos cerca de 15 milhões de usuários do mixi prefere revelar pouco ou nada sobre si mesmos.
E isso não é uma questão referente ao mixi, mas sim ao Japão como um todo. O YouTube faz muito sucesso por aqui, mas são raros os usuários que atendem ao convite do site para que se mostrem em vídeo ao mundo. Postar vídeos sobre animais de estimação é muito mais popular, e resultou em geração de celebridades animais.
Em grandes sites de paquera como o Match.com, o objetivo do exercício é exatamente falar sobre si mesmo e conhecer outras pessoas. Mas menos de metade dos membros pagantes da Match.com no Japão oferecem fotos em seus perfis, ante quase 100% dos membros nos Estados Unidos.
Bem-vindo ao cenário das redes sociais online japonesas, no qual é muito improvável que você venha a conhecer alguém que ainda não conhece. As promessas iniciais de uma nova fronteira social aberta, semelhante ao mundo centrado em identidades pessoais do Facebook e do MySpace nos Estados Unidos, foi substituída por um reino no qual as pessoas se mantêm seguramente abrigadas em seus círculos de amigos, e poucas optam por se revelar a desconhecidos.
“Existe a sensação de que ‘meu rosto não é interessante’ ou ‘não sou atraente - nada tenho de especial para mostrar às pessoas’”, diz Tetsuya Shibui, escritor que há muito acompanha o desenvolvimento da Internet no Japão.
De fato, o mundo virtual japonês não difere muito do mundo real do país. As pessoas raramente se apresentam pelo prenome a quem não conheçam muito bem. Diálogos espontâneos são incomuns mesmo nos trens e ruas lotados de Tóquio. Os programas noticiosos de TV muitas vezes ocultam os rostos de pessoas vistas ao fundo de uma cena que esteja sendo filmada, para proteger sua privacidade.
Takahashi, que criou seu perfil no mixi três anos atrás, o mantém escondido de forma a que apenas usuários convidados possam visitá-lo. A lista de amigos online que tem no site cresceu para cerca de 300 nomes, poucos dos quais ela não conhece em pessoa, mas ainda assim ela removeu detalhes pessoais do perfil e passou a postar bem menos.
“Se eu falar demais, as pessoas erradas podem ler, e as coisas se complicariam”, ela afirma.
Essa tendência à invisibilidade dificulta às redes sociais ocidentais ganhar espaço no país. As incursões tardias do Facebook e do MySpace (parte da News Corp.) ao mercado japonês, por exemplo, não atraíram grande interesse.
O Google, que opera o YouTube, tentou convencer os japoneses a relaxar, organizando eventos em Tóquio nos quais garotas de minissaia percorriam a cidade carregando molduras fotográficas gigantes e câmeras de vídeo, solicitando que os pedestres se enquadrassem na moldura e gravassem vídeos para o site.
Mas a empresa decidiu reduzir esses esforços. A mais recente campanha do YouTube no Japão gira em torno de vídeos dos animais de estimação das pessoas.
“Não temos como mudar a forma de viver do povo japonês”, disse Tomoe Makino, encarregado de desenvolver o relacionamento com parceiros no site japonês do YouTube. “Essa é a singularidade da cultura japonesa - o anonimato funciona, no Japão”.
Nem sempre foi assim. Quando o mixi foi lançado, no começo de 2004, muitas pessoas se registraram com seus nomes reais e postaram fotos. “Era tudo entre amigos, e amigos de amigos, de modo que fácil realizar buscas usando nomes, e era fácil encontrar as pessoas”, diz Shibui.
Mas o mixi rapidamente ganhou popularidade e destaque na mídia, à medida que se aproximava a data de sua oferta inicial de ações, em 2006. O site só aceita novos membros por meio de convites de usuários existentes, mas algumas pessoas haviam começado a enviar convites de forma aleatória. O conceito de círculo de amigos foi violado e os usuários existentes começaram a fechar o acesso a seus perfis e a utilizar pseudônimos no site.
Naoko Ito é uma participante típica do cenário online japonês. Os vídeos que ela posta sobre a bagunça que seus gatos costumam fazer em casa estão entre os mais populares do YouTube japonês. O blog de Ito, que é funcionária administrativa em um escritório, traz fotos diárias de seus gatos e das confusões que aprontam, e a popularidade das fotos lhe valeu contrato para um livro. Mas Ito não revela seu nome e em cinco anos de blog, raramente postou fotos que mostram seu rosto.
Ela diz que não é costume, entre os japoneses, se colocar em destaque, e que os raros casos nos quais decidiu postar fotos suas era só para mostrar que ela é uma pessoa comum.
“Quero que as pessoas sintam que sou alguém normal, nada de especial, só uma pessoa que gosta de gatos”, ela escreveu em mensagem de e-mail.
A relutância em revelar informações pessoais online se acopla à desconfiança generalizada quanto às pessoas que o fazem, e sites estrangeiros como o Match.com tiveram de se adaptar. O site opera um escritório no Japão desde 2004, e acrescentou recursos exclusivos para o país como certificação de identidade, a fim de gerar uma atmosfera de confiança.
“Quando pesquisamos sobre os consumidores japoneses, constatamos que o principal motivo para não usar um serviço online de encontros era o fato de que eles não sabiam se a outra pessoa era ou não real”, diz Katsu Kuwano, presidente da Match.com.
O site elevou seu número de assinantes no Japão adotando uma abordagem dirigida com mais cuidado às mulheres japonesas, cujo interesse principal é casar; as campanhas publicitárias costumam acontecer perto dos grandes feriados, quando elas viajam para suas cidades de origem e enfrentam pressão dos pais para que se casem.
Mas Kuwano diz que, mesmo para as mulheres em busca de maridos no site, apenas 40% se dispõem a postar fotos, e que a probabilidade de que os homens respondam a um perfil sem ver uma foto antes é muito menor.
A empresa espera convencer mais pessoas a se mostrarem online ao se definir menos como empresa de web, aproveitando o movimento “konkatsu”, muito popular no Japão, que ajuda pessoas a encontrar pares ideais para o casamento. A Match.com também realiza eventos em restaurantes de Tóquio.
Mesmo que a Internet japonesa não seja o lugar ideal para conhecer gente nova, a fixação com o anonimato ainda assim resultou em explosão na expressão pessoal - uma grande mudança em uma cultura na qual as opiniões fortes em geral não são expressas em público. Fóruns de discussão anônimos como o imenso 2-channel são altamente populares, e tópicos são propostos para discussão minutos depois que acontecem.
Como vemos em outras partes do mundo, o anonimato online do Japão pode revelar o lado mais desagradável da natureza humana, mas observadores como Shibui dizem que isso também ajuda as pessoas a se libertar e expressar mais.
“Ao usar a Internet para falar anonimamente sobre seus problemas, ou mostrar o que elas têm de bom, ou fazer com que os outros riam”, ele disse, “os japoneses agora podem interagir com base no que está sendo de fato dito, sem se preocupar com quem está falando”.
Fonte: Terra
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